domingo, 16 de maio de 2021

Guerra fria civil no Brasil - Quem está vencendo?

João Wagner Galuzio

Era uma vez, a guerra fria, conflito internacional que durou décadas na segunda metade do Século XX envolvendo as duas maiores superpotências do planeta, os Estados Unidos da América e a, então, União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. Há historiadores que consideram, inclusive, que esse período e conjuntura representariam uma virtual terceira guerra mundial. 

Um temível, provável e sempre iminente confronto nuclear entre estas duas forças antagônicas e seus respectivos países satélites polarizaram um complexo sistema no campo de forças internacional. Dois impérios, uma só obsessão, prevalecer sobre todos, a despeito da liberdade e das vontades de todas gentes. 

De um lado, a URSS mobilizando países em sua área de influência na Europa do leste e parte substancial da Ásia e do Oriente Médio, enquanto financiava iniciativas socialistas em diversas repúblicas nas Américas do Sul, Central e na África. De outro lado os EUA e outras nações obedientes, como Canadá, Europa Ocidental e o Japão, se opunham ao totalitarismo comunista, nem que para isso fosse necessário viabilizar igual totalitarismo por meio de governos militares de direita. 

Muitos testes atômicos depois, a concorrência espacial e  uma extraordinária escalada armamentista acabaram por desarmar vários gatilhos para uma efetiva conflagração bélica, cujos desdobramentos poderiam levar à extinção da humanidade. Receio, medo, pânico ou pavor modularam o nível de tensão por toda parte até o esgotamento desse modelo na última década do milênio. Diziam que uma nova ordem mundial se inaugurava, balela. Vimos apenas o surgimento de um novo componente ocupando espaços deixados pelos antigos antagonistas, a China, no mais o mesmo.  

Eis que a atual conjuntura nacional não parece diferir do modelo havido durante a Guerra Fria, guardadas as proporções. De fato, talvez já tenhamos iniciado a nossa guerra fria, incivilizada, entre as nossas duas impotências (sic) democráticas que, radicais, pretendem impor sua vontade desigual, antes de compor uma sociedade plural. 

Se sustentam da cooptação de pequenos partidos vassalos, satélites dos grupos ideológicos diferentes, mas não distintos, são mesmo cínicos e obscenos. Dois blocos exclusivos entre si, uma só obsessão, prevalecer sobre todos, a despeito da liberdade e das vontades de todas gentes.

Essa nossa guerra civil é fria na forma e incandescente no conteúdo. Na forma as semelhanças estão nas armações, nos recíprocos golpes desleais, nas simulações e conchavos, no compadrio em comissões e comitês. No conteúdo, irrompem argumentos populistas de ideólogos (sic) idiotas e, ou, anacrônicos. Há aqueles que 'odeiam a classe média' enquanto uns outros, como touros enfezados, ululam 'nossa bandeira jamais será vermelha'.       

Em comum, não são unanimidade, como não reconhecem isso são megalomaníacos, tentam usurpar poderes constituídos e testam as placas tectônicas com apropriação de forças vermelhicidas (meu exército não deixará passar) ou da força de movimentos sociais (vou por o exército do MST nas ruas).  

Diversos institutos e mecanismos de pesos e contrapesos jurídicos  vão mediando nossa guerra civil, fria e insensível, adiando o fim da nossa civilidade. Receio, medo, pânico ou pavor vão alimentando o ódio e o nível de tensão por todo país. 

Quem vai vencer? Não sabemos! Podemos medir as perdas humanas, mais de quatrocentos mil em contínua progressão. Outras vítimas são tão irreparáveis como as vidas, visto que sem elas a vida não tem sentido, a educação, a cultura, a esperança e a liberdade. 




sábado, 15 de maio de 2021

Terceira via: mais civismo e menos narcisismo.

                                      João Wagner Galuzio 

Em redes sociais, por mais de uma vez me inqueriram em quem eu votaria, se não fosse no mecânico sindicalista ou no soldado nacionalista? Penso, se me permitem,  menos num nome e muito mais numa atitude, do candidato e dos cidadãos.

Minha opção, via de regra, é não votar em sujeitos que se apresentam como salvadores da pátria, estejam à direita ou à esquerda.

Não acredito em candidato que "joga para a galera"... que fala o que as pessoas gostam de fantasiar, para se esconderem de seus medos. Oferecem soluções fantásticas dizendo: vou resolver tudo no meu mandato... sou o melhor. Se apresentam como infalíveis.

Uai, caramba, é condição natural de ser humano, ser falível. Saber reconhecer nossos limites é meio caminho para o caráter honesto. Falar a verdade implica, inclusive (e especialmente), dizer das decisões graves e impopulares, que são indispensáveis, mas isso não dá voto...

Em nossa adolescente democracia gostamos de ouvir soluções mágicas (e simplistas) que "atendem" (#SQN) nossos desejos mais mesquinhos e, iludidos mantemos nossa mente em uma zona de conforto com falácias ou nacionalistas, ou socialistas. 

Duas utopias ingênuas, próprias de quem é imaturo emocionalmente, a primeira porque é xenófoba e odeia a diversidade, a segunda porque, querendo a diversidade, patrocina um tratamento único para todos, confrontando classes e coletivos, essencialmente diferentes entre si.

As duas não admitem a liberdade, o nacionalismo só reconhece "a fala" dos que pensam igual, enquanto a outra utopia quer impor aquele tratamento isonômico, mas odeia o debate quando fraciona os cidadãos por "lugar de fala"...

Lembrando que nacionalismo não é patriotismo. Hitler, Mussolini e Trump são alguns estandartes do nacionalismo burro e egoísta.

Outro aspecto grave da nossa ingênua democracia é essa necessidade de indicarmos um certo 'quem' ... nosso sistema político não está estruturado em ideologias e, ou, propostas de nação com partidos fracos e frouxos.

Prevalecem os indivíduos acima dos partidos que parecem menos agremiações ideológicas e se parecem muito mais com franquias mercadológicas: 

O que você quer? Faça seu pedido! Emprego? Nossa franquia é a melhor, até o nome da marca envolve trabalho.

Ah você quer educação? Nossa marca é especialista em adestramento moral.

Essas 'franquias' não têm líderes partidários, mas donos que se comportam como 'reizinhos' desde as capitanias hereditárias.  Não há desenvolvimento de novas lideranças, inauguram dinastias.

Esse modelo é ao mesmo tempo causa e efeito da miopia estrábica de eleitores que, ora nos comportamos como clientes dessas franquias (partidos), ora como torcedores.
Mais ou menos engajados (os clientes) ou mais ou menos fanáticos (os torcedores).

sábado, 17 de abril de 2021

Não acredite na ciência, entenda-a! Fé é da natureza das religiões.

 João Wagner Galuzio

Trocando uns dedos de prosa com meu irmão José Roberto, tentávamos entender como que, considerando os argumentos escabrosos e bizarros multiplicados todos os dias por negacionistas, pessoas inteligentes e razoáveis, ainda resistem a acreditar na ciência no que se refere ao enfrentamento da Covid-19. Neste instante, não me caiu uma ficha, mas um orelhão1 inteiro despencou sobre mim. Percebi que estamos jogando o jogo dos fanáticos, dos fundamentalistas, ou políticos, de quaisquer partidos, ou religiosos de qualquer denominação.  Os que são fanáticos odeiam a razão e, obsessivos, vivem em constante exaltação. São estimulados pela paixão ou afetados pelo medo, sempre irracionais.

Sem juízo de valor, crente como eu sou penso que seja oportuno lembrar ou entender algumas sutilezas. Acreditar é a manifestação da fé incondicional, da doce e mansa obediência a dogmas e certezas inexplicáveis e aquele que acredita não busca o saber, a fé lhe é bastante suficiente. A ciência ou, o conhecimento, muito diferente disso, não se sustenta pela crença ou pela fé. Duvidar é a manifestação da humildade indispensável da mente inquieta e sedenta por aprender. A certeza, estática e imutável, é a falência da ciência, pois o próprio conhecimento é, essencialmente, dinâmico e movediço. Não acredite na ciência, entenda-a!

Uma das estratégias para se impor uma certeza é a interrupção constante da voz daqueles que desejem apresentar uma hipótese alternativa. Não permitem que algum argumento diferente, mais ou menos coerente, seja considerado. Nenhuma frase, por menor que seja, encontra oportunidade de ser elaborada. O único modo em que os fanáticos operam, para controlar a cena é o passional, deslocando seus noviços para o nível primitivo, mantendo-os ora com medo, dizendo, por exemplo -“Nossa bandeira jamais será vermelha” e, ou, como remédio para elevar a autoestima uma simulação de patriotismo – “O Brasil acima de tudo...” Mais uma vez eu preciso ratificar: o fanatismo não escolhe orientação política ou religiosa. Há fanáticos que acreditam serem proprietários exclusivos da ética (autoestima) e odeiam a classe média patrocinando o medo ou ódio das elites (sic).

Não faz sentido sugerirmos aos fanáticos para que acreditem na ciência, seria como pedir que alguém, intrínseca e radicalmente, subordinado a uma fantasia ou alegoria pudesse adotar a ciência como se fora outra religião.  Que acreditem, com entusiasmo, no que quiserem, mas entendam que a ciência, complexa e sutil, generosa e flexível, trabalha objetivamente no nível racional, sem afetações. Impossível não extrapolar a carta de São Paulo aos Coríntios, em seu décimo terceiro capítulo.

O amor é paciente, é benfazejo; não é invejoso, não é presunçoso nem se incha de orgulho; não faz nada de vergonhoso, não é interesseiro, não se encoleriza e não se alegra com a injustiça, mas fica alegre com a verdade. Ele desculpa tudo, crê tudo, espera tudo, suporta tudo.

Assim como o amor é a ciência. Sem amor, a ciência se esvanece, mas com as suas virtudes é sensível, nunca radical. Não funciona com ódio, nem medo, não se prevalece.

Extremistas, nacionalistas ou populistas, como forma de manipulação, usam o sentimento de insegurança, de fragilidade e de vitimização para semear o medo. Instalado o medo, se apresentam como estandartes da autoestima virtuosa, necessidade de todos bons cidadãos que, ingênuos, se identificam e repercutem menos como robôs, e mais como tratores, aqueles rolo-compressores, com  discurso imperador e imperativo. Xenófobos, para manterem sua zona de conforto, usam da velocidade e da intensidade de seus ataques para, invertendo o sentido e significado dos diálogos calar os que pensam diferente.

Não é improvável que você conheça a frase apócrifa “Sempre acuse seus adversários do que é verdadeiro sobre você mesmo.” Algumas vezes atribuída a Lênin -sem evidências- esta sentença é bastante utilizada pela direita para denunciar eventual desvio de caráter da esquerda. De novo, de autor desconhecido, a frase parece se aplicar aos dois extremos políticos que têm, como traço comum, o mau-caratismo. Parece ser o modus operandi de todo aquele que pretende semear ódio e cizânia. Steve Bannon, por exemplo, ensina estratégia semelhante quando orienta algo como: ‘Ocupe a mídia e domine a pauta, nem que seja necessário dizer absurdos, mas não dê espaço para o discernimento ou razão.’

A quantidade extraordinária de mensagens com fake news, que se sucedem em poucos minutos, todos os dias, faz parte dessa estratégia passional. Essa avalanche de falácias não dá tempo para que se possa processar qualquer informação. Uma vez doutrinado, o sujeito irá objetar tudo que os outros possam querer lhe apresentar como argumentos alternativos. Ofuscado, mesmo desejando ser inteligente e sensato, será envolvido, novamente, uma bola de neve de mais noticias falaciosas que irão representar um reforço positivo aos seus dogmas ou estimulando sua autoestima ou afetando sua memória afetiva com bastante medo. Está posto o círculo vicioso do medo e autoestima. A ciência? É estratégia do inimigo! Professores? Que sejam desmoralizados. Idiotas? Se cumplices, que sejam tratados como renomados especialistas, para que simulem uma ciência carismática e medieval, para que todos convertidos nela acreditem. 



1 Para os muito jovens, ‘orelhão’ era um equipamento telefônico público, disponível nas ruas, cujo  formato se assemelhava vagamente ao nosso pavilhão auricular. Como se fosse uma cabine telefônica, onde usávamos fichas que, por vezes, se não ‘caiam’ não completavam a ligação.

segunda-feira, 29 de março de 2021

Visão sistêmica e miopia sistemática - uma questão de ótica!

João Wagner Galuzio

Certa vez, depois de eu descrever a importância da visão sistêmica como competência diferencial para o exercício cidadão e profissional, um aluno me trouxe, na aula seguinte, seu currículo onde já havia adicionado essa virtude entre suas qualificações. Expliquei, por óbvio, que no currículo devemos apresentar tudo aquilo que podemos demonstrar suficiência ou experiência. Propus um desafio para que pudesse demonstrar essa capacidade e lhe pedi que fizesse uma análise da, então recente, crise financeira internacional decorrente dos eventos relativos aos títulos sub prime que devastou a economia por todo o planeta no final da primeira década do século 21. Ligeiro, ele respondeu: “É uma crise, é financeira e é internacional!”

Naturalmente tive oportunidade de orientar o noviço sobre como parecia singela sua resposta e apresentei alguns elementos que, no meu também modesto entendimento, pareciam ser ingredientes de uma visão sistêmica como as habilidades de observar e perceber a dinâmica, a velocidade e a intensidade ao longo do tempo e, simultaneamente, reconhecer a extensão e a repercussão no espaço ou ambiente relativo aos eventos intrínsecos a aquela crise.

Apesar de 10 anos passados, penso que cada vez mais seja necessário refletir nestes tempos em que redes sociais se tornaram tribunais, muitos blogs pretendem ser agência de notícias e indivíduos que, de cidadãos conscientes, se converteram em aglomerados radicais, cujas opiniões são determinadas por algum tutor ou mecanismo virtual. Como isso pode acontecer? Eu, cândido e poliano, vou tripudiar uma hipótese, primária, mas plausível.

Para contextualizar vou buscar algumas referências ancestrais relativas ao desenvolvimento de nosso jeito homo sapiens de entender o mundo. O nosso córtex pré-frontal é um dos componentes mais sofisticados do nosso cérebro e capaz de observar, comparar, associar, elaborar e processar raciocínios complexos. No entanto, esse processador fenomenal talvez esteja perdendo protagonismo para os nossos cérebros límbico e reptiliano, que alternam soluções excludentes entre si: bater ou correr, lutar ou fugir, enfrentar ou se esconder. Parece que nunca foi tão fácil (e delicioso) criticar ou, como se convencionou dizer mais recentemente, ‘cancelar’ o outro. Não concordamos com o que nem entendemos e então criticamos ou, se impotentes para criticar, tratamos como descartável e desprezível a opinião do outro, simplesmente lhe atribuindo com sarcasmo qualquer predicado ou adjetivo infeliz.

Otimista compulsivo, eu pensava que este retrocesso fosse de apenas algumas poucas décadas, mas agora percebo que o gatilho da polarização nos transporta, na melhor das hipóteses, à idade média e, na pior das hipóteses, à idade da pedra lascada. A conveniência da mentalidade medieval nos trazia conforto quando enxergávamos o sol em torno da terra, dogma que parecia óbvio no tempo das trevas. Antes, como nômades sapiens, temíamos a luz além das cavernas, valei-me Platão. Esse enxergava muito! Essa polarização atual patrocina o linchamento dos que se alternam e se altercam em cavernas vizinhas, mas opostas.

O que é sombra para um é luz para o outro e vice versa. Ofende a todos os entrevados atrever-se tentar enxergar além de sombras no cafofo da caverna, zona de conforto de cérebros cujos neurônios parecem satisfeitos encharcados de dopamina, uma lente química para recompensar nossas certezas. O método de linchamento varia conforme o buraco em que se meteram. Para os ermitões à direita, pensamento crítico faz do iluminado um ‘isentão’ ou omisso, para os que se acham progressistas na caverna à esquerda, ter comportamento ou consciência diferente, o torna um burguês, classe média. Para os que estão em cavernas, não interessa a razão, apenas a desmoralização. Para manterem a ordem unida uns, surdos, berram slogans e gritos de guerra, enquanto do outro lado, alguns punhados gritam e repetem citações como se decreto, certeza ou verdade absoluta fossem.

Hoje, para viver e crescer numa sociedade complexa e dinâmica impõe-se, como elementar, a necessidade de se perceber, observar e aprender os movimentos mais ou menos velozes e as tensas e intensas mudanças ao logo do tempo; e, mais ou menos abrangentes e extensas no espaço. Parâmetros elementares que representam a base da visão sistêmica. Se não, de outro modo, míopes, vamos perceber e observar quaisquer fenômenos de um jeito embaçado e, ou, editados e afetados por lentes distorcidas, provocando o astigmatismo ideológico.

Perceber e observar fotos e memes, alguns divertidos - é verdade-, outros ‘ingênuos’, para se entender as engrenagens de como se dá a evolução política de uma sociedade, a relação entre os poderes, as implicações jurídicas e as sutilezas culturais representa uma sistemática miopia intelectual. Para ficar na metáfora oftalmológica é como ignorar um grave escotoma, para enxergarmos apenas o que podemos ou queremos. Um escotoma pode ser natural, o ponto cego lateral de nossa vista ou, se patológico, é a perda, menor ou maior, de parte do campo visual resultado de uma lesão na retina. Por analogia, também se diz escotoma a nossa fixação em um único e estreito foco na observação ou análise de qualquer evento, versus um universo de detalhes em perspectiva. Enxergamos apenas o paradigma mais confortável como arma para lutar ou ferramenta para fugir do que não sabemos.

Negação, distorção e generalização são algumas das lentes mais fáceis para fazer nossa miopia parecer ‘supervisão’ sistêmica. Prevalece o domínio do método indutivo para se entender o todo a partir de algum mínimo substrato do objeto. Esse método de se compor o contexto não tem nada de errado em si mesmo, a encrenca se dá quando escolhemos e determinamos apenas uma fração para formar inteiros deformados. Essa edição, muitas vezes, nos faz chapar todas as sutilezas como intensidade e extensão, no tempo e no espaço, como se tudo estivesse na mesma proporção.

Um evento, dado ou informação numa dimensão primitiva, em março de 2020 divulgada no sertão da ciência subordinada a todo tipo fundamentalismo ideológico é usado para comparar com uma avaliação sofisticada, complexa e multifacetada produzida em laboratórios teóricos submetidos a todos rigores metodológicos. Faz-se um recorte, pode ser um post bobo, para ‘julgar’ um relatório ou estudo envolvendo o estado-da-arte em pesquisa científica. Pior, muitas vezes, aqueles ‘cientistas’ fundamentalistas usam a estrutura de apresentação de métodos para fazer parecer crível. Assim, basta chamar de científico um texto medíocre, simulacro de meta-análise, mas apenas colagem ginasial de ideias desconexas, que é divulgado numa revista desqualificada, para que ele pareça ganhar status para enfrentar teses elaboradas e amplamente testadas, corroboradas ou não. As cavernas ululam e apupam a sombra que ilumina sua miopia sistemática.

quinta-feira, 21 de janeiro de 2021

BIDEN X trump: sobre planos e falácias

João Wagner Galuzio

Bolsonaro e Pazuello, vocês tinham até ontem, como referência, uma aberração que jamais leu um relatório de inteligência e, ou, reportes de estratégia internacional e bastante menos orientações científicas em geral e relativas à pandemia, em particular. Quase idiota, o primata chegou a sugerir a injeção intravenosa de desinfetantes, para 'curar' a doença. Diante do olhar estupefato dos que assistiam a cena, ratificou, "É sério, precisa ser estudado!" 

Disse por diversas vezes que tudo estava sob controle e que logo iria desaparecer como milagre. No final da sua campanha para se reeleger, gesticulava freneticamente movimentando a mão aberta de cima para baixo como se estivesse cortando algo, para indicar que tudo seria encerrado rapidamente. Nunca apresentou uma ação ou critério, objetivos, que justificassem suas afirmações. Tudo se resumia a predicados tão retumbantes quanto prepotentes, sobre qualquer tema, encerrava: terrific, tremendous, superb, fantastic, excellent, gorgeous etc. Fato zero, fake 100. 


Desde ontem, "inauguration day" um novo presidente se instalou na Casa Branca, e no dia seguinte de sua posse,  apresentou agora para toda a nação, um arquivo em pdf que pode ser baixado no site https://whitehouse.gov  um Plano Estratégico (200 páginas) com os 7 objetivos a serem enfrentados, a saber: 

Meta 1: Restaurar a confiança do povo americano;

Meta 2: Montar uma campanha de vacinação segura, eficaz e abrangente;

Meta 3: Mitigar a propagação expandindo o mascaramento, testes, tratamento, dados, força de trabalho e padrões claros de saúde pública.

Meta 4: Expandir imediatamente o alívio de emergência e exercer a Defesa Lei de Produção.

Meta 5: Reabrir escolas, empresas e viagens com segurança, enquanto protege os trabalhadores.

Meta 6: Proteger aqueles que estão em maior risco e promover a equidade, inclusive racial, linhas étnicas e rurais / urbanas.

Meta 7: Restaurar a liderança dos EUA globalmente e criar uma melhor preparação para ameaças futuras.

Note-se que no melhor estilo de gestão organizacional em alto nível, a última meta é, ao mesmo tempo, uma eventual primeira meta para potencial e provável crise futura. 

Então Srs. Jair e Eduardo, quando no futuro quiserem dizer de algo parecido com um plano.... considerem o Sr. Biden como referência e esqueçam aquela ameba  laranja.

Ficar dizendo que há um plano e, muito pior, dizer que o plano foi lançado sem que ninguém tivesse tido o mais tênue vislumbre do que fosse isso, com indicações risíveis como: "Vai começar no dia D, na hora H" é piada de muito mau gosto. Essa afirmação só encontra comparação na máxima da 'presidenta': "Nós não temos uma meta, mas quando alcançarmos a meta, vamos dobrar a meta."

Também não é divertido esse diversionismo de lançar balões de ensaio para confundir a nação, diante de vossa inação. Não são as forças armadas que determinam se prevalece a ditadura ou a democracia ou, a suma bravata de seu procurador geral travestido de advogado criminalista, ensaiando sobre a antessala do estado de defesa.

Em vez de factoides, considere a hipótese de trabalhar, tenho certeza de que encontrará funcionários de carreira capazes de elaborar um rascunho responsável e pragmático para, minimamente, os orientar e, quem sabe, tenham coragem e competência para seguir e compartilhar com todos. 




https://www.whitehouse.gov/wp-content/uploads/2021/01/National-Strategy-for-the-COVID-19-Response-and-Pandemic-Preparedness.pdf


Decisão do STF sobre MP 926 de 2020.


João Wagner Galuzio

STF reconhece competência concorrente de estados, DF, municípios e União no combate à Covid-19.


Para todos ingênuos inocentes uteis que repercutem uma imagem (Figura 1) de uma nota boçal de um blog afetado que sugere, como argumento, que o STF teria proibido alguma coisa ao senhor tenente, reformado capitão, eleito presidente. Seguem algumas considerações para todos nós que reconhecemos a inoperância, relativa em alguns casos e a incúria em muitos outros, do executivo federal.


Figura 1 - Relativamente a isolamento e quarentena.

Não sou advogado, mas é necessário o entendimento mínimo do vocabulário jurídico. Analisar a decisão com a interpretação de texto própria de um leigo poderá resultar confusão.

Da decisão do STF.

As disposições [na MP 926/2020] não afastam a competência concorrente nem a tomada de providências normativas e administrativas pelos estados, pelo Distrito Federal e pelos municípios.

"Para deixar claro que a União pode legislar sobre o tema, mas que o exercício desta competência deve sempre RESGUARDAR a autonomia dos demais entes." Deste modo, o governo federal pode (muito,  não proíbe nada), mas deve respeitar as competências dos outros entes, em particular as questões sanitárias de cada local.

O governo federal pretendia concentrar exclusivamente todo o poder de polícia sanitária [quando quis] interferir no regime de cooperação entre os entes federativos, pois confiava (exclusivamente) à União as prerrogativas de isolamento, quarentena, interdição de locomoção, de serviços públicos e atividades essenciais e de circulação.

A decisão do STF trata apenas dessa polícia sanitária (de novo, isolamento, interdição de locomoção, de serviços públicos e atividades essenciais e de circulação). Não trata e, portanto, NÃO PROÍBE o Governo Federal de exercer suas atribuições de gestão, coordenação e execução de planos, orçamentos para enfrentamento da pandemia.

Tanto não proíbe nada que o governo:

1.      Decidiu criar um comitê de Crise para Supervisão e Monitoramento dos Impactos da Covid-19, coordenado pela Casa Civil (surpreende que não pelo ministério da Saúde);

2.      Decidiu e forneceu equipamentos necessários como ventiladores, leitos de UTI e testes e outros (sem controle houve denuncias e inquéritos de superfaturamento);

3.      Decidiu e patrocinou o auxílio emergencial para milhões (sem controle houve muitas fraudes) e políticos, empresários e até funcionários públicos teriam se beneficiado;

4.      Decidiu prescrever tratamento precoce quando já havia consenso sobre a sua ineficácia;

5.      Decidiu desqualificar as orientações médico-científicas sobre distanciamento, higiene e uso de máscaras (tema tratado pelo STF);

6.      Decidiu sabotar ações dos outros entes da federação patrocinando aglomerações em manifestações irresponsáveis (desobediência civil);

7.      Decidiu contratar e fazer produzir milhões de comprimidos de cloroquina (improbidade);

8.      Decidiu por ignorar, adiar ou retardar a logística de aquisição de insumos (agulhas e seringas) sabidamente necessários desde julho de 2020;

9.      Decidiu não entender e não atender (em julho 2020) representantes de laboratórios fabricantes de vacina enquanto o mundo já reservava várias opções em prazos e quantidades (criando dificuldades para talvez ‘vender’ alguma facilidade);

10.  Decidiu constranger a Secretaria de Saúde de Manaus, em 11 de janeiro 2021, fornecendo 120 mil comprimidos de cloroquina para que, em visitas do ministro às UBS de Manaus, fosse “difundido e adotado o tratamento precoce exigindo o uso quando, por outro lado, já era sabido o desabastecimento de oxigênio; O ofício, prova substancial de crime de responsabilidade, ressalta “a comprovação científica” da medicação, “tornando dessa forma, inadmissível, diante da gravidade da situação de saúde em Manaus a não adoção da referida orientação.” Simplificando, o ministro não foi a Manaus para planejar nada, mas apenas para aplicar o golpe do falso tratamento precoce que, uma semana depois, negou peremptoriamente jamais haver sugerido (Figura 2) - Ofício nº 5/2021/SGTES/GAB/SGTES/MS;

Figura 2 - Tratamento precoce MS

11.  Decidiu não fazer convênio que depois virou protocolo de intenção, para depois mentir (SQN) que todo o dinheiro da CoronaVac (a tantas vezes maldita pelo tenente) tinha tido origem no MS para, depois de não apresentar evidência de pagamento, declarar que o valor será pago a posteriori quando a totalidade das 100 milhões de doses, forem entregues mediante emissão de nota fiscal do Instituto Butantan ao Ministério da Saúde".

12.  Decidiu muito, demais, exageradamente tarde, "quase" considerar a urgência das vacinas e começou a tratar do assunto como uma adolescente deslumbrada. Escrevendo uma 'cartinha' fofa ao primeiro ministro indiano, quando três meses antes havia prejudicado severamente os interesses daquele país. “Vacinas vão chegar em poucos dias” dizia ao fazer o pagamento antecipado (Figura 3) de um contrato que deixa explícito "prazo de entrega em ATÉ 90 dias;"

Figura 3 - Prazo de entrega 90 dias.

13.  Decidiu "lançar" o  muito desconexo porque desconhecido, anacrônico porque tardio e inviável por não indicar ao menos o início do 'Plano Nacional de Imunização' da Covid19, sem data nem hora;

Essas são algumas das decisões acertadas e outras não, deste Governo Federal QUE PRETENDEU PROIBIR Estados, municípios e DF de conduzir ações de polícia sanitária como a adoção de etiqueta de higiene, o uso de máscaras, isolamento e quarentena, mas sob esse pretexto, eximiu-se de quaisquer irresponsabilidades suas. Como três em cada quatro adultos brasileiros têm relativo analfabetismo funcional e não entendem o básico do que estão lendo, se não apenas o ululante, muito menos entendem fundamentos de juridiquês. Limitação suficiente para que interpretem como seus mentores inúteis lhes adestram.

 



sexta-feira, 15 de janeiro de 2021

Carros e estádios ou processadores e vacinas?

                João Wagner Galuzio 

Prezado senhor ministro especialista em logística, sugiro que observe dois leigos civis sobre o assunto.

1. O governo da Índia promoveu dias atrás uma simulação da 'campanha de vacinação' para checar se quantidades, locais e profissionais envolvidos pudessem verificar o que pode ser melhorado. Fica a dica: é uma ferramenta elementar de administração, de nome PDCA. Com certeza muitos de seus recrutas conhecem...

2. O Sr Joe Biden, outro civil, tem preparada para assinatura no dia de sua posse uma edição da "Lei de Produção de Defesa" (como se em tempos de guerra estivessem) que estabelece que a "indústria americana deve adotar como prioridade a produção de seringas e agulhas"... algo semelhante como ocorreu na segunda guerra... a população entrava com matéria prima (latas e panelas) para todas empresas fabricantes de geladeiras e outras UDs fabricassem armas, tanques e aviões.   Aqui seringas e agulhas...

Fica a dica: vocês sequestraram a fé e o idealismo nacionalista de milhões, que tal usassem essa mobilização hein...

Por último e óbvio não vou lhes atribuir as políticas industriais, baseadas em subsídios para setores específicos da economia que, primeiro a linha branca e agora os automóveis, se revelaram temerária. 

Igualmente vou apenas lembrar a bobagem que foi desperdiçar bilhões de reais num programa pseudo esportivo, quase faraônico, para receber o futebol e os jogos olímpicos de verão, em prejuízo de hospitais ou centros de saúde.

De outro lado vou lhes oferecer uma alternativa para calarem a boca de líderes europeus que 'pagam' de ambientalistas. É  claro que aqueles não são ingênuos e pretendem bastante a proteção de seus agricultores, muitos com sua ineficiência subsidiada.

Querem mesmo demonstrar alguma inteligência estratégica? 

Invistam mais em parques tecnológicos e na produção de processadores de alta performance e menos em veículos, patrocinem nossos empresários e empreendedores no desenvolvimento e  instalação de indústrias produtoras de vacinas. Temos know how, demanda e clientes vizinhos e, a leste, além oceânicos.
Parece sutil, mas não é, que entre os BRICS... Os 'RIC' sejam os grandes produtores de vacinas e nós, as vacas.  Agricultura e pecuaria merecem toda atenção seja a soja ou vocês vacas, mas o mundo competitivo joga num nível muitas vezes superior. 

É fácil chegar junto deles (#SQN)... Reformas: política, administrativa, tributária. Como? Uai, vejam sua proposta de programa de governo, se encontrarem.