segunda-feira, 11 de janeiro de 2021

Vai-se ford (minúsculo deliberado).

 

Vai-se ford (minúsculo deliberado).

João Wagner Galuzio

Hoje, 11 de janeiro de 2021, a empresa Ford apresentou formalmente, ao mercado, fato relevante indicando o encerramento de todas as suas atividades produtivas no Brasil, desde já, mantendo apenas a sede administrativa para a América do Sul, seu centro tecnológico e declarou garantia de fornecimento de peças para os seus veículos. A produção será mantida e concentrada na Argentina, no Uruguai e em outros locais.

Eu entendo que seja uma decisão que irá causar muito grave e dramático impacto na vida de dezenas de milhares de funcionários diretos e indiretos, será também um ambiente nervoso para os proprietários de seus veículos que provavelmente perceberão uma rápida depreciação no valor de seus veículos usados ou seminovos. Além destas consequências importantes, no entanto, tenho algumas considerações...   

1ª) Nestes 100 anos de Brasil, a Ford fez parte de um oligopólio onde contavam apenas uns poucos players: Volkswagen, GM, Ford e, mais recentemente a FIAT a partir dos anos 1970. Período quando esse clube mandou e desmandou, como lhes aprouve, abusando de subsídios, financiamentos e facilidades como, por exemplo, o Draw Back. Esse mecanismo cambial permitiu que aquelas empresas enviassem para cá a sucata de suas plantas de veículos descontinuados em seus países de origem em condições bem vantajosas. Por décadas remeteram lucros extraordinários em detrimento do parque industrial nacional.

2ª) Com a modernização consequente aumento da competitividade do setor no mundo todo e, em particular no Brasil, com a chegada de várias outras montadoras da Europa e da Ásia, a gestão do negócio no Brasil ficou cada vez mais complexo, ainda mais e especialmente considerando a instabilidade que é essa palhaçada que virou o Mercosul;

3ª)  A hegemonia da indústria automotiva norte-americana veio se deteriorando em função da competitividade e inovação tecnológica e comercial internacional e, depois de 2008, quando a empresa se viu em maus lençóis e quase faliu naquela crise do subprime. Apenas não soçobrou por conta da intervenção salvadora do governo americano;

4ª)  Uma de suas maiores concessionárias, se não a maior parceira, vem concentrando sua estratégia no desenvolvimento da marca Chery... criando e instalação o parque fabril da CAOA/Chery com carros interessantes e competitivos; 

5ª) A FORD irá continuar com a administração e a área de desenvolvimento de novos produtos; A nota informa que os veículos FORD continuarão sendo oferecidos, aqueles produzidos na Argentina e no Uruguai e em outras praças;

6ª) Talvez seja oportuno lembrar que a Ford já vinha sem rumo no Brasil desde o início dos anos 1980 e que, depois, conseguiu uma sobrevida com a Autolatina, num acordo que se não estou enganado foi mais favorável para a empresa americana e menos para a empresa alemã.

7ª) Me parece ainda mais preocupante a recém anunciada fusão entre a FIAT e o grupo mantenedor das marcas PEUGEOT e CITROEN. Não me surpreenderá que esta fusão vá impor uma nova reestruturação global mais severa com repercussões por aqui, envolvendo mais fábricas, modelos e funcionários.

Outras duas possibilidades ainda podem decorrer... uma saudável e outra mais grave... a saudável... a Ford já estaria iniciando negociações para outras montadoras assumirem suas fábricas e parte dos funcionários. A pior notícia é que, com a Covid-19, outras montadoras possam estar avaliando suas estratégias.

Por último eu lamento, pessoalmente, que não tenhamos um Ministro das Relações Exteriores bem preparado e orientado para negócios internacionais. Decisões dessa natureza como a que a FORD tomou estão sendo engendradas a meses. Não é improvável que, enquanto o senhor Ernesto ficou fazendo beicinho para o eleito presidente americano, Joe Biden de um lado e, brincando de malmequer com a tecnologia 5G chinesa, que hoje já representa mais de 40% da infraestrutura brasileira de comunicação 4G, simultaneamente e pelas costas do governo brasileiro, a FORD estivesse em tratativas adiantadas com os nossos adversários do MERCOSUL.

Não me surpreenderia que o próprio Donald, antes de sua insurreição, tivesse privilegiado seu real amigo pessoal, o ex-presidente argentino Mauricio Macri. Não é improvável que, na conta do americano presidente pato manco e empresário desleal, tenha pesado o cálculo de seus prováveis negócios (campos de golfe e resorts) no território de nossos, mais uma vez, adversários do MERCOSUL

Como assim adversários do MERCOSUL?

Alguém tem que dizer para a Argentina, e isto vem desde o governo FHC inclusive, que um bloco econômico não é bloco hegemônico. Caramba, para não dizer obscenidades, toda vez é isso, a Argentina só leva vantagem. Humildade e reciprocidade dos ‘hermanos’, condições que são indispensáveis para qualquer casamento, relacionamento ou parceira é ZERO. Fordê, vai lá e fala para Argentina comprar os carros que ela produzir.

Produzir lá e vender aqui é fácil, seus carros não vão fazer falta nenhuma entre as inúmeras opções que temos por aqui. Quer vender aqui? Mantenha os empregos e instalações aqui, ou precisamos desenhar? Mais uma vez, querem produzir na Argentina para vender aqui? Não mesmo, na na ni na... tchau, vai-se ford (sic).

Esculachando Descartes e ensopando Lavoisier.


João Wagner Galuzio

U

ma das mentes mais prodigiosas da história da humanidade, Descartes nos proporcionou um legado incrível, o método. O pensar para o saber, esta qualidade tão fértil nunca mais foi a mesma depois dele, se pouco ou muito afetada por suas ideias.

Método é uma característica inexorável da natureza, em todo o universo, que desenvolve e segue padrões desde sempre. O homo sapiens, observador, cada vez mais foi entendendo essa dinâmica. Primeiro observando as estações, o sol, a lua, as estrelas e todas as criaturas, percebeu que tudo tem sentido e direção, tudo se sucede e constante evolução.

Renato Descartes reconheceu a importância do método como alavanca do conhecimento humano, não uma muleta e, jamais, o limite do nosso saber. Com a licença da redundância, os métodos podem representar as estratégias mais ou menos conscientes, mais ou menos elaboradas para se acelerar o nosso processo evolutivo civilizatório. Renato sonhou uma ciência maiúscula e ideal, capaz entender todos os fatos e eventos. Um sonho que, apesar de etéreo e lírico, iluminou o modo muito objetivo do aprender conhecer.

Outra mente gigante, Lavoisier, compreendendo aquelas leis (ou métodos) da natureza ‘lacrou’: “Na natureza nada se perde, nada se cria, tudo se transforma” ou, como as tribos mais antigas na África já decretavam: “hatuna matata” ou, para dizer ‘sem problema’, pois no final resta o equilíbrio, o padrão prevalece, o ciclo se completa.

Em seu discurso do método, por princípio, Descartes observa que o nosso jeito de ser gente é muito sabido mas também pouco sábio. Todos nós temos a convicção de sermos donos do bom senso e pensamos que somos todos donos das nossas certezas e verdades. Na internet, os algoritmos, inocentes, levam a culpa e são criticados como responsáveis pela nossa idiotização quando, na verdade, repetem apenas os modelos operacionais de nossa inteligência cada vez mais fracional em benefício da inteligência artificial. Esse desperdício da nossa inteligência facilita e concentra ainda mais a nossa necessidade insaciável de dogmas e paradigmas.

A

 certeza é um tesão e a sua compulsão, um conjunto de múltiplos de prazeres intelectuais.  É sério! Elegante, o nosso amigo Descartes jamais seria assim literal como eu, mas em essência estou apenas parafraseando. Portanto, o problema da nossa era das incertezas, como diria Galbraith, não é a inteligência ser cada vez mais artificial, mas o artifício da ignorância que usamos como subterfúgio para o nosso delicioso e sedutor reducionismo lacrador.

Esta redução não ocorre apenas, como é mais evidente, no âmbito da coisa política ou das ciências em geral, mas é muito mais abrangente no nosso cotidiano familiar, no trabalho e nas relações comerciais. Maltratamos nossos gigantes quando generalizamos e banalizamos nossos relacionamentos. Trucidamos o legado deles quando distorcemos dados e resultados, relatórios e balanços para realizar lucros que escondem malfeitos onde ou pouco se perde ou pouco se ganha, mas no fim tudo se transforma, em bônus.

P

or último e talvez mais grave, desprezamos a indispensável consciência da complexidade humana e, ao mesmo tempo, a unicidade das coisas vivas ou não, das coisas importantes ou irrelevantes, ou não e, para ‘caetanear’ ainda um pouco mais negamos o que não é espelho. Negamos a nossa própria inteligência quando nem sequer percebemos o estado das coisas e muito menos ainda, quando odiamos a perspectiva do diferente.

A vaidade da inteligência do nosso supremo bom senso, tudo solapa, numa sopa creme de ideias rasas, frases prontas, memes maliciosos, slogans hilários, julgamentos sarcásticos e adjetivos cruéis que tem a eficácia de negar Lavoisier e transforma tudo em nada.


quinta-feira, 7 de janeiro de 2021

Voto impresso – O voto cabresto.

                                                                                                                                   João W. Galuzio

Há um importante e sagrado fundamento constitucional que preconiza a mais total liberdade de opinião política, a inviolabilidade do voto. É um exercício inalienável de consciência cidadã que não pode e não deve jamais ser devassado.

Um cidadão não pode ser constrangido a dar satisfação, a quem quer que seja, sobre sua opção política. É um segredo tão inviolável que nem um terapeuta, um padre confessor ou marido controlador, podem sonhar acessar. Para nós cidadãos leigos, que não conhecemos os meandros jurídicos que balizam este instituto, sabemos isso na prática, quando somos impedidos de fazer registro fotográfico de nosso sufrágio individual.

Toscas teorias paranoicas querem fazer mentes foscas crerem que o voto eletrônico não seria seguro e, para parecerem sérios esses teóricos, ou terroristas, apresentam aqui e ali depoimentos de ‘técnicos’ que teriam tido sucesso na invasão das urnas eletrônicas. Não há confirmação metodológica, de modo efetivo, que permitisse uma denúncia formal que levasse a cabo uma investigação pelo STF que comprovasse tais argumentos.

Curioso que todo político diplomado teve sua posse garantida pelo mesmo sistema que alguns deles querem desacreditar. Então, a quem interessa esse controle externo ao sistema? Muito mais àqueles que pretendem se eternizar no poder, criando e mantendo os seus currais eleitorais, sejam os antigos e mal ditos ‘coronéis’ em suas sesmarias e outros os cangaceiros das cidades grandes como milicianos, ‘donos’ de comunidades e de movimentos sociais, além de traficantes de influência, de pessoas e de todas as drogas.

Os votos impressos, nestes casos, servirão de moeda de troca de favores para uns e tábua de salvação para outros, para não serem desprezados os primeiros ou massacrados aqueles outros, onde quase sobrevivem e o estado e as instituições democráticas não alcançam. Esse voto, cabresto, atende exclusivamente aos poderosos das vilas, das favelas, dos jardins ou das universidades, públicas e privadas. O cabresto não escolhe condição social ou intelectual. Uma vez vulnerável, da chibata não escapa o abestado.

A pretexto de transparência e segurança, sua aprovação irá promover a transferência e a governança desse único e extraordinário poder para quem é opressor. O voto secreto nos fortalece e nos faz todos iguais. Se não, de outro lado, o voto impresso será ‘exigido’ nos sertões, nas comunidades e nas cidades, mais ou menos frágeis. Representará o solapamento dessa pedra fundamental do nosso edifício constitucional.

 

terça-feira, 5 de janeiro de 2021

Nação sem noção.

João W. Galuzio

O paradoxo da comunicação e a contaminação do ‘não senso’ são dois elementos complementares na vitória da ignorância sobre a ciência e a consciência. Em toda evolução humana a comunicação foi motor e combustível de grandes processos de aceleração em nossa jornada. Motor quando estimula novas intervenções e formas de manifestação e, combustível quanto mais conteúdo produz e cada vez mais e melhor são gravados novos registros, de geração em geração. Se aqueles momentos eram os primeiros tempos de nossa história registrada, hoje talvez estejamos vislumbrando os últimos termos como escória do que poderíamos ter realizado.

O paradoxo está evidente na relação entre o extraordinário ‘arsenal de ferramentas tecnológicas’ de comunicação e a flagrante dizimação do diálogo como fator básico do desenvolvimento humano. A facilidade da impressão superficial e descartável parece prevalecer sobre a expressão do que essencial e sustentável.  Blogs, sites e chats cativam e engessam opiniões baseadas em pedaços, ou edições dos fatos, para atender a interesses submersos e subterrâneos, estimulando um círculo tão vicioso como delicioso da nossa zona de conforto mais primitiva e não, não restam inocentes à esquerda ou à direita em suas utopias esquizofrênicas.

Os que pretendem patrocinar um debate são vítimas de um ataque pelas laterais dos insanos radicais. Como o argumento desses é apenas a repetição e a repercussão de memes com humor e slogans perversos que desqualificam, por princípio, qualquer outro que ‘pense’ diferente, afinal quem pensa, incomoda. Os que pensam e não caem nessa armadilha neurótica ou dramática são tratados ou como “isentões” pela direita ou como “neutros” pela esquerda, nos dois casos de modo muito pejorativo.

Este massacre é parte do outro elemento complementar, a contaminação da ignorância, a truculência do ‘não senso’ como estratégia de convencimento, é a síntese do não penso, logo resisto a quaisquer dados ou informações que constranja além do horizonte plácido e flácido. Excitado por inputs hipnóticos, que têm a eficácia do reforço positivo, o cérebro em êxtase, elabora sinapses reducionistas que são lambuzadas de dopamina. O delírio é avassalador.

Embriagado por incontáveis estímulos em textos e fotos, ou numa ordem gigante de outros sinais que, cada um deles, ao seu tempo vai sedimentando e embaçando a razão de toda gente boa, tornando o indivíduo dependente químico de todo mensageiro cínico, político por indecência. Esse processo bate-estaca tem o poder de higienizar a mente livre e conturbada, lavando seu cérebro de ‘sujeiras’ como o livre arbítrio e pensamento crítico.

Uma alternativa para se enfrentar essa overdose passa pela abstinência dessas drogas, em silêncio, de mente e espírito. O silêncio não é ausência de comunicação, mas um ambiente adequado para, com a mente calma e serena processar as informações e permitir uma reflexão mínima e ponderada. Sem reflexão as pessoas creem que suas certezas são fruto de sua própria inteligência quando são, mais provavelmente, lesões causadas pelo linchamento mental, moral e emocional a que foram subordinadas.

Nesses neurônios alucinados estabelece-se o distanciamento intelectual, que afasta as mentes, outrora brilhantes e suas ideias e as converte em sombras de ideais confusos ou equivocados. Isolados, mentalmente falando, vamos nos afastando uns dos outros, perdendo a indispensável consciência do tecido social diverso e complexo, até perder o senso de nação ou, se não, vamos nos aglomerando como claque enclausurada, até ruir feito uma nação sem noção, babel de algoritmos. Para quem possa me achar rabugento este foi o cenário mais otimista que pude imaginar, estou velho. Sábio ou sabido?


quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Jornalista, analista ou alarmista?

 

João Wagner Galuzio

Recebi hoje, 17dez2020, por WhatsApp, um extrato do vídeo do jornalista Alexandre Garcia onde ele destaca, com entusiasmo, o depoimento no Comitê de Segurança Interna e Assuntos Governamentais do Senado norte-americano, em 08 de dezembro pp, do médico pneumologista e intensivista, o Dr. Pierre  Kory, apresentando o remédio Ivermectina, para tratamento de vermes e parasitas, como a solução definitiva para se enfrentar a COVID-19.

Vou fazer minhas considerações em duas partes. Primeiro entendendo o vídeo do popular jornalista brasileiro e, na segunda parte, vou dizer o que penso do evento naquele comitê do senado estadunidense. Nos dois casos vejo muito deslumbre, muita exaltação e pouca informação.

Do senhor jornalista, Alexandre Garcia

Admito que, por anos, ouvi com cuidado e atenção as crônicas deste, muito bem articulado, jornalista em suas intervenções na mídia. No entanto, parece ter se libertado de um cabresto editorial quando saiu das baias da Rede Globo onde, provavelmente, era ‘orientado’ ou pautado para se manter subordinado a uma determinada cosmética. Agora, sem freios e arremedos, parece ter encontrado a sua verdadeira identidade de porta-voz milico para exacerbar sua liberdade de expressão tanto em seu canal virtual como, por último, na CNN Brasil.

Eloquente, ele parece um analista, mas não passa de um alarmista. Em seus vídeos ardilosos esbanja falácias em profusão. Aliás, este vídeo em particular mostra, didaticamente, como elaborar uma falácia. Combina algumas informações reais e objetivas, mas acessórias, com ilações frágeis e subjetivas sobre elementos críticos e relevantes. Vou tentar apresentar algumas em umas poucas 380 páginas, #SQN, apenas um desabafo para dizer quanto isto me afeta e me irrita profundamente, gente loquaz pouco tenaz.

O vídeo alexandrino. Começa usando de um estilo informal, quase simpático para angariar a docilidade de quem ouve, parece que estamos numa mesa de bar, trocando ideias inocentemente. Para parecer ‘sério e responsável’ garante que checou e, portanto, é verdade ou, ao modo italiano (ainda mais informal): “é vero”. Isto está quase adequado em se considerando que houve mesmo o depoimento no dia 08 de dezembro de 2020 (não dia 10), e é correto que foi mesmo o médico (Pierre Kory) e foi mesmo num comitê do Senado americano. Diz ainda, para complementar as informações reais e objetivas (ingredientes para tudo o mais para frente parecer verdadeiro, armadilha comum nas falácias), que o médico é especialista em UTI e “tá cheio de títulos” e mais de 30 estudos (uau).

UAU, então não se atrevam a contestar um médico intensivista cheio de títulos e, para encerrar sua estratégia de conquistar o coração e a simpatia daqueles que o assistem, demonstra a grande empatia do médico com os negros, latinos e idosos, entre os que mais morrem de COVID19, sem mencionar, em absoluto, que estes são os vulneráveis que, por não terem recursos, não têm acesso ao extremamente caro sistema de saúde americano. Muitos deles se resignam a morrer em casa, para não exaurir o patrimônio da família em dívidas milionárias com hospitais.

Para não me estender sobre este analista alarmista, vou direto ao seu último ingrediente da falácia: “Ivermectina está envolvida (sic) no Prêmio Nobel de Medicina de 2015.” Não sei o que ele pretende dizendo que a droga esta ‘envolvida’ naquele prêmio, pois é objetivamente o desenvolvimento dessa substância que mereceu o prêmio. Talvez sua claudicância esteja ‘envolvida’ em seu constrangimento de dizer que um dos três cientistas laureados, na ocasião, foi a cientista chinesa, senhora Youyou Tu. Já pensou ter que admitir que até Ivermectina tem componente chinês? Para os conspiracionistas uma tragédia.

Do médico e sua panaceia.

Vou pegar bastante mais leve com o Dr. Pierre Kory, pois quero lhe dar o benefício da dúvida, levando em conta o provável e real interesse no desenvolvimento de uma solução. Então vou me ater ao que o colunista alarmista não checou ou nem considerou. Ficou se estendendo em dizer que toma Ivermectina desde junho (ou sem receita, ou com receita off label) e que confessa ter tido contato com inúmeros infectados. Quero demais estar errado e não desejo que o senhor Eggers Garcia resulte infectado.

Distraído em sua automedicação, Garcia talvez tenha deixado de observar que o médico compareceu a um comitê sobre segurança nacional e não a qualquer um dos outros comitês como o de Ciência ou o Comitê de Saúde, por que será? Com a hegemonia trumpista negacionista, todos os comitês do senado americano estão sob presidência de senadores republicanos, uns mais ou menos alinhados ao criacionista (pato manco) Donald Trump, o senador Ron Johnson, presidente deste comitê entre os mais fanáticos.

Sempre distraído em sua catarse bolsonarista, talvez tenha se esquecido de ‘checar’ se “é vero” o estudo argentino não apresentado muito menos identificado envolvendo 800 pessoas. Posso estar muito enganado, então vou dizer apenas surpreendente que adotassem um método para pesquisa de novos remédios em um remédio já aprovado e fartamente documentado, acho pouco crível, embora não impossível.

Também ou não checou ou não deu importância ao relato do médico dizendo que em Uganda já é usado em larga escala. UAU de novo, caramba o médico está no centro dos maiores e mais ricos institutos de pesquisa farmacêutica do mundo, mas precisa recorrer a um, (vai tá bom vou chamar de) ‘estudo’ argentino não identificado e às boas práticas angolanas. Hein? Com bastante respeito aos profissionais médicos destes dois países, mas... é sério?

Sem medo de ser contestado, entendendo que já convenceu a todos que a sua palavra é “a própria expressão da verdade” o alexandrino youtuber nem mais mede a modéstia: “A conspiração NIH/FDA/CDC não reconhece décadas (ou século) de estudos com uma ‘montanha de provas’. Bão, para eu não incorrer no mesmo erro de ficar encantado com minha verborragia vou compartilhar alguns links que ajudarão você a formar sua própria opinião.

 

Primeiro, o link do jornalista Alexandre Garcia.

Entre outras falações, como porta-voz informal do atual governo federal, veja o conteúdo aqui observado a partir de 6’25” (seis minutos e vinte e cinco segundos) no link:  https://youtu.be/jvgyu5XwiHs

 

Segundo, um link do canal de youtube do Senador Republicano Ron Johnson, presidente do Comitê de Assuntos de Segurança.

https://youtu.be/YgOAaLmoa68

Terceiro, um link de um site especializado em fazer checagem de fatos e fake news. Está em inglês, mas nada que um tradutor virtual não resolva.

https://www.berkshireeagle.com/factcheck/no-evidence-ivermectin-is-a-miracle-drug-against-covid-19/article_fa981028-3c9c-11eb-83f5-e75cbf969494.html


Considerações finais

Mais uma vez, como tudo é bastante recente, ficaria muito feliz se o futuro demonstrar que estou errado e que a Ivermectina possa se revelar, efetivamente, como uma ferramenta poderosa de prevenção e cura da COVID19. Vou ressaltar, ratificar e recalcitrar a minha sugestão de receberem com alguma ou bastante prevenção quaisquer informações sobre a pandemia, se elaboradas por enfermeiros e outros médicos que não sejam: infectologistas, virologistas, epidemiologistas, sanitaristas ou médicos de saúde pública e pesquisadores bioquímicos, estes são os caras. Outros profissionais de saúde podem ser bem intencionados mas, eu não sei vocês, eu não procuro um infectologista para tratar de uma contusão de futebol, como não procuro um ortopedista para tratar de uma virose.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2020

Vacinação, sem vacilação já!

joao.galuzio@gmail.com

Quando vejo pessoas ingênuas dizendo para não se testar a vacina com profissionais de saúde e sim com políticos, pois eles "não fariam falta" ou, para se testar com presos,  eu fico consternado por perceber que muitas pessoas estão julgando sem entender as fases do processo no primeiro caso e mais desumanidade no segundo caso.


Concordo que muitos de nossos políticos têm caráter e comportamento desprezíveis, especialmente aqueles que ofendem a comunidade científica e patrocinam a ignorância, negando os fatos mais contundentes. 

MAS, quanto à vacina, nós educadores que entendemos fundamentos dos métodos da ciência, precisamos orientar quem precisa ser vacinado com urgência.

Não há essa hipótese de "se não der certo" essa questão foi enfrentada na fase 1, que trata da SEGURANÇA (entre abril e maio 2020). 

Talvez seja bacana mostrarmos às pessoas a importância de se vacinarem entendendo o que nossos colegas cientistas  como nós professores estão fazendo. Sim todo professor é um cientista!

Fase 1 - Teste de segurança com um número extremamente reduzido de voluntários (10 a 50, no máximo)... quando se verifica se envolve algum risco severo; 

Fase 2 - Eficiência da vacina, já se sabe que a vacina é segura, vai se observar se ela gera imunidade. Para isso é necessário e possível um número maior de voluntários, em torno de 1000 ou um pouco mais (pois já se sabe que a vacina é segura desde a primeira fase); 

Fase 3 - Pretende-se verificar a EFICÁCIA da vacina, ou seja, em qual porcentual de voluntários a imunidade é efetiva (pois já se sabe que a vacina é segura desde a primeira fase);

Cada organismo, cada ser humano é  único, NENHUMA vacina tem 100% de eficácia. 

O que o relatório, que será divulgado neste início de semana dez/2020 (relativamente à Coronavac) dirá é: entre 50 mil ou mais voluntários, a vacina teve eficiência e eficácia em X porcento.

Observe-se por último que muitas vacinas são consideradas satisfatórias com eficácia em torno de 70%... 

A julgar pela fase 2 da Coronavac,  (pesquisa envolvendo dezenas de cientistas de altíssimo nível internacional do Instituto Butantan).. não é  improvável que a eficácia seja superior a 90%...

Considerando as dezenas de bilhões de dólares que estão sendo investidos em cerca de 200 vacinas anti-covid no mundo, podemos entender como nunca antes na história da humanidade houve uma resposta tão rápida e "emergencial" ... 

Então é natural que outras novas vacinas diferentes surgirão com mais ou menos eficácia, sendo inclusive incluídas em programas como a da vacinação contra gripe. 

Como professores e formadores de novos cientistas júniores, penso que esta devesse ser a mensagem a ser compartilhada.

Vacinação sem vacilação, já!

segunda-feira, 8 de abril de 2019

Os 100 dias e metas sem noção.


                              João Wagner Galuzio

O nosso sistema eleitoral em dois turnos, solução inteligente e necessária, muitas vezes estabelece uma condição que pode  explicitar e até exacerbar as nossas diferenças. Desta forma não é incomum que um novo presidente brasileiro seja eleito com mais de 50 milhões de votos. Talvez pouco mais de um terço destes votos sejam de seus eleitores naturais.

Em segundo turno então, é natural decidirmos ou por escolher a proposta mais semelhante às nossas ideias, ou até, para evitar aquela outra proposta que não queremos. É de se esperar, como manda a elegância da civilidade, que a parcela que não alcançou a vitória reconheça e respeite a decisão das urnas e que, naturalmente, estabeleça uma oposição coerente e responsável.

Na democracia, esta relação entre todos cidadãos irá preparar o terreno para mudanças em solo fértil e saudável. Na sucessão de governos entre FHC e Lula houve o que se pode classificar como uma transição razoável. Mais recentemente, diante da vitória de seu exótico e milionário opositor, Barack Obama ofereceu-nos a todos um exemplo de caráter democrático e de autoridade moral para manter a autoestima de todos os seus apoiadores. Humilde na derrota, foi sensacional na liderança de seus eleitores naquele momento dramático. Ainda hoje se mantém acima das trincheiras dos castelos ideológicos em que se enrascaram aqueles estados desunidos.

Aqui em Pindorama, nossa "Terra Brasilis" vivemos outro drama. Vimos por aqui, nas urnas, os efeitos da polarização global.  Muitos entre os que elegeram esse modelo democrático institucional, essencialmente formal no estilo e militar na estrutura, talvez buscassem um contraponto à fadiga da democracia assistencial, dialética por princípio, mas disléxica em termos objetivos e subjetivos.

Tristemente, resultado da polarização burra, ambas parecem manter um traço comum, se sustentando em dúbias ideologias gritadas por pensadores radicais. Dois destes poderiam bem formar um casal maluco, cujas núpcias talvez pudessem ilustrar o realismo fantástico em que vivemos. Discursos tão diferentes, mas parecem que foram feitos um para o outro, Marilena e Olavo. Ela, querendo ser progressista, estimula o retrocesso, onde todos, muito iguais, teríamos reduzida a nossa vontade própria, ficando submissos à inteligência da espécie. Ele, conservador, por surpreendente que pareça, aposta na dinâmica do progresso como atalho para a prosperidade de todos. Ingênuos e truculentos, confundem ideologia com idealismo. Pretendendo ser idealistas, são narcisistas.

É muita filosofia e pouca economia, o Brasil não precisa disso, precisa de norte, decisão e ação. Depois do vácuo desenvolvimentista cuja epígrafe "Despesa é vida" quase tornou-se nosso epitáfio, houvemos que temer (sic) o hiato de um governo que nunca foi. Meses de procrastinação!

Num misto de medo e de esperança, de um lado e de outro, as urnas elegeram a mudança como alternativa para resgatar nosso sonho de liberdade e de desenvolvimento, sustentáveis. No entanto, a primeira reunião ministerial parece ter sido a senha dos primeiros dias deste governo.

Quando um conselho de ministros se reúne apresentando 35 metas para os primeiros 100 dias, em que muitas delas ou são muito complexas (implicam em processos de longo prazo) ou se revelam inviáveis, a insegurança pode prevalecer.

Nem tudo é desespero! Talvez haja alguma intenção de coerência neste não-método. A confusão, o caos, parecem pretender causar um choque anafilático no coletivo de corporações de uns e no messianismo de movimentos organizados de outros que, juntos, vão destruindo a ideia de nação. É muito "ismo" para um Brasil só. Depois do choque precisamos saber quem vai desfibrilar Brasília, nosso frágil e impaciente coração nacional.

Estes primeiros 100 dias passados nos deixaram sem noção, os próximos 100 dias, com a previdência, teremos uma nova chance de nação. Com o potencial de iluminar algum futuro possível, se não, quem sabe nos reste a providência, Dele que todos gostamos de dizer que é Brasileiro.